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Per­di­ção pa­la­cia­na, por Afonso Lopes

Posted by André de Moraes | Posted in Goiás, Política, eleições 2010 | Posted on 03-11-2009

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Per­di­ção pa­la­cia­na, por Afonso Lopes

*Matéria escrita por @a_fonso para o Jornal Opção.

Na ilu­são ge­ra­da pe­lo exer­cí­cio do po­der sur­gem er­ros de ava­li­a­ção da re­a­li­da­de po­lí­ti­ca

Pa­lá­cios po­dem mui­to, cer­to? Cer­tís­si­mo. Sem re­pa­ros. O po­der po­lí­ti­co re­pre­sen­ta­do pe­la con­quis­ta do Pa­lá­cio é vas­tís­si­mo e se es­ten­de por to­dos os se­to­res da so­ci­e­da­de. En­tão, por con­clu­são, o Pa­lá­cio po­de tu­do quan­do a ques­tão é po­lí­ti­ca? Não, es­se é exa­ta­men­te o gran­de er­ro que se po­de co­me­ter. A ve­lha fra­se de que o “Pa­lá­cio po­de mui­to, mas não po­de tu­do” é ab­so­lu­ta­men­te re­al.

O go­ver­na­dor Al­ci­des Ro­dri­gues (PP) ca­mi­nha nes­te mo­men­to so­bre es­sa tê­nue e frá­gil li­nha que se­pa­ra o “mui­to” do “tu­do”. Em te­se, pe­lo me­nos até ago­ra, as es­ca­ra­mu­ças do PP pa­la­cia­no com o PSDB es­tão den­tro dos li­mi­tes que se po­de­ria es­ta­be­le­cer pa­ra o “mui­to”. Ape­sar das ca­ras en­fe­za­das, das far­pas e fa­ca­das, o pro­ces­so con­ti­nua den­tro des­se li­mi­te. Não se par­tiu pa­ra o ir­re­al po­der de “tu­do”.

En­tão, es­tá-se aqui di­zen­do que PP e PSDB vol­ta­rão aos di­as de paz, uni­ão e ami­za­de po­lí­ti­co-elei­to­ral? De ma­nei­ra ne­nhu­ma. Os pe­rí­me­tros do “mui­to” vão além do que se ima­gi­na en­quan­to fa­to de li­mi­ta­ção. Por­tan­to, res­ta­be­le­cer a ali­an­ça com o PSDB ou não é ape­nas uma ques­tão li­ga­da à con­du­ção do pro­ces­so, não o fa­tor de­ci­si­vo que de­ter­mi­na o exa­to mo­men­to em que se ex­tra­po­lam es­sas li­mi­ta­ções.

Mas on­de, afi­nal, es­ta­ria o “tu­do” ilu­só­rio? No er­ro bru­tal de jul­ga­men­to de que, a par­tir do po­der pa­la­cia­no, se­rá pos­sí­vel al­te­rar tão sub­stan­ci­al­men­te fa­tos re­ais. Is­so já ocor­reu no go­ver­no atu­al. Du­ran­te três anos, o Pa­lá­cio in­ves­tiu tu­do o que po­de­ria in­ves­tir pa­ra re­ce­ber a fi­li­a­ção de Hen­ri­que Mei­rel­les, pre­si­den­te do Ban­co Cen­tral. Foi um mo­men­to em que os pa­la­cia­nos ima­gi­na­vam que “tu­do” po­de­ri­am.

Há ou­tro exem­plo que mos­tra mui­to bem o con­tras­te des­sas li­mi­ta­ções. Em me­a­dos de 2005, o Pa­lá­cio fez “mui­to” pa­ra for­ta­le­cer um no­me que pu­des­se her­dar o apoio po­lí­ti­co e elei­to­ral do en­tão go­ver­na­dor Mar­co­ni Pe­ril­lo. Che­gou a fo­men­tar po­si­ti­va­men­te pe­lo me­nos três pre­ten­den­tes, e ao fi­nal so­bre­vi­veu ape­nas Le­o­nar­do Vi­le­la. Ape­sar de ter fei­to “mui­to”, o Pa­lá­cio não con­se­guir im­por “tu­do”. O lan­ça­men­to da can­di­da­tu­ra do en­tão vi­ce-go­ver­na­dor Al­ci­des Ro­dri­gues de­ter­mi­nou os tais li­mi­tes.

É bem ver­da­de que nem sem­pre os pa­la­cia­nos res­pei­tam es­sa re­gra tão bá­si­ca que se­pa­ra o “mui­to” do “tu­do”. Há ou­tro cla­rís­si­mo exem­plo de rom­pi­men­to des­sa bar­rei­ra na po­lí­ti­ca go­i­a­na. Em 1989, em meio a uma cri­se sem ta­ma­nho, os pa­la­cia­nos do pe­e­me­de­bis­ta Hen­ri­que San­til­lo, en­tão go­ver­na­dor (1987-1990, fa­le­ci­do em 2002), acre­di­ta­ram que o Pa­lá­cio po­de­ria fa­zer “tu­do” con­tra a can­di­da­tu­ra de Iris Re­zen­de. Não deu. No fi­nal da elei­ção, cons­ta­tou-se que hou­ve um er­ro gra­ve de ava­li­a­ção.

De ago­ra em di­an­te, se­rá a vez do gran­de tes­te po­lí­ti­co dos atu­ais in­te­gran­tes do Pa­lá­cio. Tal­vez o epi­só­dio Mei­rel­les te­nha dis­pa­ra­do o alar­me da li­mi­ta­ção des­se po­der. Po­de ser tam­bém que is­so não te­nha ocor­ri­do ver­da­dei­ra­men­te. Há al­guns sin­to­mas de que tal epi­só­dio prin­ci­piou di­vi­sões en­tre aque­les que ou­vi­ram as si­re­nes e os que con­ti­nuam acre­di­tan­do que, a par­tir do Pa­lá­cio, “tu­do” é pos­sí­vel. Fi­ca a dú­vi­da, sa­be-se lá por quan­to tem­po, se irá pre­va­le­cer os bons de ou­vi­do ou aque­les que se tor­na­ram sur­dos pe­lo po­der mo­men­tâ­neo.

Qual­quer que se­ja a de­ci­são ma­jo­ri­tá­ria do Pa­lá­cio em re­la­ção às elei­ções do ano que vem, cer­ta­men­te se­rá ne­ces­sá­ria uma al­tís­si­ma do­se de cor­re­ta ava­li­a­ção po­lí­ti­ca. Se a op­ção for re­con­ci­li­a­ção den­tro da ba­se, en­tão se­rá ne­ces­sá­rio cons­tru­ir no­va­men­te as pon­tes des­tru­í­das ao lon­go dos úl­ti­mos anos. Não há co­mo fa­zer o ca­mi­nho de vol­ta por al­gum ata­lho. To­dos eles le­vam ao nau­frá­gio. Por ou­tro la­do, se a op­ção for pe­la cons­tru­ção de uma no­va com­po­si­ção, igual­men­te se­rá im­por­tan­te o es­ta­be­le­ci­men­to de um mé­to­do com­pe­ten­te de apro­xi­ma­ção. Ima­gi­nar que “tu­do” se­rá con­se­gui­do por for­ça iner­cial é um er­ro bru­tal.

Pa­la­cia­nos têm afir­ma­do cons­tan­te­men­te que o PP irá cons­tru­ir uma terceira via ao la­do do DEM, do PR e do PSB. No pa­pel, não há qual­quer im­pe­di­men­to. Es­ses qua­tro par­ti­dos têm di­rei­to, por exem­plo, a sub­stan­ci­ais 31% do tem­po de cam­pa­nha no rá­dio e na TV. É bem mais que a so­ma de PSDB-PPS-PTB, com 22%, e pou­co me­nos que o ei­xo PMDB-PT, com 33,5%. O pro­ble­ma co­me­ça des­se pon­to em di­an­te.

Com uma can­di­da­tu­ra ex­tre­ma­men­te com­pe­ti­ti­va, a do se­na­dor Mar­co­ni Pe­ril­lo, PSDB-PPS-PTB têm tem­po su­fi­ci­en­te pa­ra dis­pu­tar as elei­ções sem mui­tos ris­cos em re­la­ção ao tem­po dis­po­ní­vel pa­ra a cam­pa­nha ele­trô­ni­ca. As di­fe­ren­ças de por­cen­tu­ais, que pa­re­cem enor­mes, na prá­ti­ca não são tão gran­des. Se, por exem­plo, Mar­co­ni so­mar 5 mi­nu­tos, Iris te­rá me­nos de 1 mi­nu­to a mais do que ele.

Co­mo Iris igual­men­te tem uma can­di­da­tu­ra mui­to bem azei­ta­da res­ta­ria à terceira via pa­la­cia­na con­se­guir fu­rar es­se blo­queio cri­a­do pe­la po­la­ri­za­ção en­tre o pe­e­me­de­bis­ta e o tu­ca­no. A gran­de in­ter­ro­ga­ção exis­ten­te é se o Pa­lá­cio po­de­ria pro­mo­ver uma re­vi­ra­vol­ta tão gran­de. Nes­te mo­men­to, é mui­to fá­cil res­pon­der a is­so: cla­ro que não. E é exa­ta­men­te aí que en­tra o glo­bal da si­tu­a­ção: até que pon­to os pa­la­cia­nos con­se­gui­rão cons­tru­ir no fu­tu­ro já não mui­to dis­tan­te es­sa al­ter­na­ti­va tão for­te.

É por es­sa ra­zão que, in­de­pen­den­te­men­te do ca­mi­nho que se­rá se­gui­do, o Pa­lá­cio cor­re ris­cos ex­tra­or­di­ná­rios. Se ava­li­ar a si­tu­a­ção tão bem quan­to o fez no epi­só­dio Hen­ri­que Mei­rel­les, o de­sas­tre to­tal é cer­to. Até por­que es­sa ava­li­a­ção não foi boa, foi pés­si­ma. E ba­se­a­da, pos­si­vel­men­te, no mun­do ilu­só­rio do “tu­do” pa­la­cia­no. De qual­quer for­ma, e co­mo de­ci­sões não cos­tu­mam ser to­ma­das com mui­ta ra­pi­dez pe­los atu­ais de­ten­to­res do po­der, tal­vez fos­se o ca­so de ini­ci­ar ime­di­a­ta­men­te dois pro­ce­di­men­tos. Um de­les é a re­cons­tru­ção das pon­tes. O ou­tro é a aber­tu­ra e apro­fun­da­men­to dos ca­nais de co­mu­ni­ca­ção com ou­tras com­po­si­ções po­lí­ti­cas. Sem um e sem ou­tro, o ris­co é ter­mi­nar “com as cal­ças na mão”.


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